Fonte original:BofA Global ResearchPrimeira publicação na Unhidea:Data da fonte original:
Ideia principal
A recuperação dos lucros da Kering continua limitada pelo fluxo insuficiente de clientes nas lojas da Gucci. O crescimento de outras marcas e o controle de custos só conseguem amortecer parte da pressão, levando o BofA a reduzir suas projeções de lucro para os próximos três anos.
A receita do grupo ficou em linha com o esperado. Por que a perspectiva ainda assim enfraqueceu?
A Kering registrou receita de 3,345 bilhões de euros no terceiro trimestre de 2026, estável em relação ao ano anterior em valores reportados e em queda de 1% a câmbio constante. O resultado ficou em linha com o consenso do mercado e 1 ponto percentual acima da previsão do BofA. Porém, as vendas no varejo do grupo caíram 3% em relação ao ano anterior, passando a uma contração após o crescimento de 2% no segundo trimestre.
A principal diferença veio da Gucci: as vendas no varejo do terceiro trimestre caíram 9% em relação ao ano anterior, uma desaceleração de 7 pontos percentuais ante a taxa de crescimento anual do segundo trimestre e 3 pontos percentuais abaixo tanto da previsão do BofA quanto do consenso do mercado. A receita total do grupo em linha com o esperado encobriu o enfraquecimento adicional do varejo de sua marca principal.
O problema da Gucci está no fluxo de clientes ou nos produtos e preços?
O fluxo de clientes é a principal limitação, com a China continental exercendo a maior pressão e uma desaceleração também acentuada nos Estados Unidos. As vendas no varejo da Gucci na América do Norte passaram de um crescimento anual de 9% no segundo trimestre para uma queda de 3%. Em contrapartida, as taxas de conversão, o valor médio por compra e os preços médios de venda melhoraram nas regiões, indicando que o desempenho das vendas depois que os clientes entravam nas lojas não compensou a redução do fluxo.
O ritmo de lançamento de novos produtos também afeta as vendas: a coleção Primavera só foi distribuída integralmente em setembro e é voltada a clientes de alto padrão. A Gucci Core, cuja chegada integral às lojas está prevista para novembro, pretende atender às necessidades do guarda-roupa cotidiano e alcançar um público mais amplo. As bolsas já apresentaram bom desempenho, enquanto o prêt-à-porter e os calçados ainda dependem de mais produtos novos.
A receita total da Gucci caiu apenas 6%, em parte graças ao crescimento anual de 45% da receita de atacado. Isso resultou de uma base de comparação baixa e do momento das entregas dos pedidos. A empresa espera que o crescimento do atacado recue acentuadamente no quarto trimestre, podendo até ficar ligeiramente negativo, o que dificulta a continuidade desse amortecedor.
As outras marcas conseguem compensar a pressão da Gucci?
O BofA estima que as vendas no varejo de moda e artigos de couro, excluindo a Gucci, cresceram cerca de 2% em relação ao ano anterior no terceiro trimestre, em ritmo semelhante ao do segundo. A Bottega Veneta manteve crescimento de um dígito alto e a Saint Laurent voltou a crescer, mas as transformações criativas da Balenciaga e da McQueen ainda geram pressão.
A receita de joias cresceu 11% em relação ao ano anterior e continua sendo um destaque, mas desacelerou 7 pontos percentuais em relação ao segundo trimestre. A receita de óculos cresceu 4%, com desaceleração de 4 pontos percentuais; a empresa atribuiu esta última principalmente ao ritmo das entregas e à sazonalidade. Ainda há fontes de crescimento, mas elas não são suficientes para reverter a queda das vendas no varejo do grupo.
O cenário do setor também está enfraquecendo: entre as oito empresas que já divulgaram resultados, o cálculo ponderado do BofA com base em seus negócios e canais de luxo mostrou que o crescimento da receita caiu de 4,2% no segundo trimestre para -0,5% no terceiro. A recuperação carece do impulso da demanda do setor.
As projeções de receita mudaram pouco. Por que as de lucro foram mais reduzidas?
A empresa afirmou que as tendências de vendas na maioria das regiões em outubro seguiram, em linhas gerais, as do terceiro trimestre e retirou sua orientação de crescimento da receita para 2026. A margem EBIT anual ainda deve melhorar em relação ao ano anterior, mas a do segundo semestre ficará abaixo dos 12,8% do primeiro; o BofA prevê 10,9%.
O BofA reduziu suas projeções de receita para cada ano de 2026 a 2028 em apenas cerca de 0,2%, mas cortou o EBIT ajustado em 4%–6% e o lucro por ação em 5%–8%. A melhora do câmbio compensa parcialmente o enfraquecimento das vendas, mas uma composição regional desfavorável na Ásia levou à redução de 20 pontos-base em cada projeção de margem bruta, enquanto as projeções de despesas também aumentaram devido à conversão cambial.
O controle de custos só pode compensar parcialmente a pressão da desalavancagem operacional causada pela queda das vendas no varejo da Gucci. O BofA agora prevê EBIT ajustado de 1,719 bilhões de euros em 2026, 6,7% abaixo do consenso do mercado, refletindo uma avaliação mais cautelosa da recuperação do lucro do que da receita.
Por que o BofA manteve a recomendação Neutra e reduziu o preço-alvo?
O BofA reduziu o preço-alvo de 280 euros para 250 euros, refletindo tanto a redução das projeções de lucro quanto a queda dos múltiplos de avaliação do setor de luxo e a falta de clareza sobre o prazo da transformação da Gucci.
Com base no consenso do mercado para os lucros dos próximos 12 meses, a Kering negocia a cerca de 24 vezes os lucros, ainda 16% acima de sua média de dez anos e 19% acima de suas pares do setor, excluindo a Hermès. Os lucros em seu ponto baixo têm espaço para recuperação, mas a avaliação atual também exige avanços na recuperação da marca e das margens; por isso, o BofA mantém a recomendação Neutra.